Aula 6: Jackknife e Bootstrap
Data: 25/08/2026.
Leitura: Wasserman (2006)
Jackknife
Ao longo desta aula, \(X_1, \ldots, X_n\) são i.i.d. com distribuição \(F\), \(\theta = T(F)\) é o parâmetro de interesse e \(\hat{\theta}_n = T(\hat{F}_n)\) é o estimador plug-in da Aula 4.
Definição (Estimativas de exclusão). Para \(1 \leq i \leq n\), seja \(\hat{F}_{n,-i}\) a distribuição empírica de \(X_1, \ldots, X_{i-1}, X_{i+1}, \ldots, X_n\). As estimativas de exclusão e a sua média são
\[\hat{\theta}_{-i} = T\left(\hat{F}_{n,-i}\right) \qquad \text{e} \qquad \bar{\theta} = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\hat{\theta}_{-i}.\]
Definição (Jackknife). O estimador jackknife do viés de \(\hat{\theta}_n\) e o estimador jackknife de \(\theta\) são
\[\hat{b}_{\text{jack}} = (n-1)\left(\bar{\theta} - \hat{\theta}_n\right) \qquad \text{e} \qquad \hat{\theta}_{\text{jack}} = \hat{\theta}_n - \hat{b}_{\text{jack}} = n\hat{\theta}_n - (n-1)\bar{\theta}.\]
Suposição (A1). Existem \(a\) e \(b\), que não dependem de \(n\), tais que
\[\mathbb{E}\left[\hat{\theta}_n\right] = \theta + \frac{a}{n} + \frac{b}{n^2} + O\left(n^{-3}\right).\]
Observação. A Suposição (A1) é o que dá sentido ao fator \(n-1\) da definição. Ela afirma que o viés se anula à taxa \(n^{-1}\) e que o termo dominante, \(an^{-1}\), não depende de \(n\) a não ser pelo próprio \(n\). É o comportamento típico de estimadores plug-in de funcionais suaves, como o do Exemplo 2 a seguir.
Teorema 1 (Redução do viés). Sob (A1),
\[\mathbb{E}\left[\hat{b}_{\text{jack}}\right] = \frac{a}{n} + O\left(n^{-2}\right) \qquad \text{e} \qquad \mathbb{E}\left[\hat{\theta}_{\text{jack}}\right] - \theta = O\left(n^{-2}\right).\]
Prova. Como \(\hat{\theta}_{-i}\) é calculado a partir de \(n-1\) observações i.i.d. com distribuição \(F\), decorre de (A1) que
\[\mathbb{E}\left[\bar{\theta}\right] = \theta + \frac{a}{n-1} + \frac{b}{(n-1)^2} + O\left(n^{-3}\right).\]
Subtraindo (A1) e multiplicando por \(n-1\),
\[\begin{align*} \mathbb{E}\left[\hat{b}_{\text{jack}}\right] &= (n-1)\left[a\left(\frac{1}{n-1} - \frac{1}{n}\right) + b\left(\frac{1}{(n-1)^2} - \frac{1}{n^2}\right) + O\left(n^{-3}\right)\right] \\ &= (n-1)\left[\frac{a}{n(n-1)} + \frac{b(2n-1)}{n^2(n-1)^2} + O\left(n^{-3}\right)\right] \\ &= \frac{a}{n} + O\left(n^{-2}\right). \end{align*}\]
Subtraindo esta identidade de (A1), os termos em \(an^{-1}\) se cancelam e sobra \(O(n^{-2})\). \(\blacksquare\)
Definição (Pseudo-valores e variância jackknife). Os pseudo-valores de \(\hat{\theta}_n\) e o estimador jackknife da variância são
\[\tilde{\theta}_i = n\hat{\theta}_n - (n-1)\hat{\theta}_{-i} \qquad \text{e} \qquad \hat{v}_{\text{jack}} = \frac{n-1}{n}\sum_{i=1}^{n} \left(\hat{\theta}_{-i} - \bar{\theta}\right)^2.\]
Observação. Como \(\tilde{\theta}_i - n^{-1}\sum_{j}\tilde{\theta}_j = -(n-1)\left(\hat{\theta}_{-i} - \bar{\theta}\right)\), tem-se
\[\hat{v}_{\text{jack}} = \frac{1}{n(n-1)}\sum_{i=1}^{n} \left(\tilde{\theta}_i - \frac{1}{n}\sum_{j=1}^{n}\tilde{\theta}_j\right)^2,\]
isto é, \(\hat{v}_{\text{jack}}\) é a variância amostral usual dos pseudo-valores dividida por \(n\). Também, \(\hat{\theta}_{\text{jack}} = n^{-1}\sum_{i}\tilde{\theta}_i\). Assim, o jackknife trata os pseudo-valores como se fossem observações i.i.d. e aplica a eles os estimadores usuais de média e variância.
Exemplo 1 (Média). Seja \(T(F) = \int x \, dF\), de modo que \(\hat{\theta}_n = \bar{X}\). Como \(\hat{\theta}_{-i} = (n\bar{X} - X_i)(n-1)^{-1}\), tem-se \(\bar{\theta} = \bar{X}\) e \(\hat{\theta}_{-i} - \bar{\theta} = \left(\bar{X} - X_i\right)(n-1)^{-1}\). Portanto,
\[\hat{b}_{\text{jack}} = 0 \qquad \text{e} \qquad \hat{v}_{\text{jack}} = \frac{n-1}{n}\sum_{i=1}^{n} \frac{\left(X_i - \bar{X}\right)^2}{(n-1)^2} = \frac{S^2}{n},\]
em que \(S^2 = (n-1)^{-1}\sum_{i}\left(X_i - \bar{X}\right)^2\). O jackknife recupera exatamente o erro padrão usual da média e detecta que ela é não-viesada.
Exemplo 2 (Variância plug-in). Seja \(T\) o funcional variância e \(\hat{\theta}_n = n^{-1}\sum_{i}\left(X_i - \bar{X}\right)^2\) o seu plug-in, obtido no Exercício 1 da Aula 4. Escrevendo \(SS = \sum_{i}\left(X_i - \bar{X}\right)^2\), vale a identidade
\[\sum_{j \neq i}\left(X_j - \bar{X}_{-i}\right)^2 = SS - \frac{n}{n-1}\left(X_i - \bar{X}\right)^2,\]
de modo que \(\hat{\theta}_{-i} = \left[SS - n(n-1)^{-1} \left(X_i - \bar{X}\right)^2\right](n-1)^{-1}\) e \(\bar{\theta} = SS(n-2)(n-1)^{-2}\). Portanto,
\[\hat{\theta}_{\text{jack}} = n\frac{SS}{n} - (n-1)\frac{SS(n-2)}{(n-1)^2} = SS\left(1 - \frac{n-2}{n-1}\right) = \frac{SS}{n-1} = S^2.\]
Ou seja, neste caso o jackknife não apenas reduz o viés: ele o elimina por completo, produzindo o estimador não-viesado da variância.
Observação (Relação com a função de influência). Como \(\hat{F}_{n,-i} = \left(1 - \varepsilon\right)\hat{F}_n + \varepsilon\delta_{X_i}\), com \(\varepsilon = -(n-1)^{-1}\), a Definição de função de influência da Aula 4 fornece
\[\hat{\theta}_{-i} - \hat{\theta}_n \approx -\frac{\widehat{\text{IF}}(X_i)}{n-1}, \qquad \text{isto é,} \qquad \tilde{\theta}_i \approx \hat{\theta}_n + \widehat{\text{IF}}(X_i).\]
Assim, os pseudo-valores estimam a função de influência por diferenças finitas, e
\[\hat{v}_{\text{jack}} \approx \frac{1}{n(n-1)} \sum_{i=1}^{n}\widehat{\text{IF}}(X_i)^2 \approx \frac{\hat{\tau}^2}{n},\]
que é exatamente a variância assintótica do Corolário 2 da Aula 4. O jackknife é, portanto, uma forma automática de calcular aquele erro padrão, sem derivar \(\text{IF}\) analiticamente.
Observação (Quando o jackknife falha). A aproximação acima exige que \(T\) seja suave o bastante para que a diferença finita se aproxime da derivada. Para a mediana isto não ocorre: \(\hat{\theta}_{-i}\) assume apenas dois ou três valores distintos, qualquer que seja \(n\), e \(\hat{v}_{\text{jack}}\) não é consistente para a variância assintótica obtida no Exemplo 7 da Aula 4. O bootstrap, a seguir, não sofre deste problema.
Bootstrap
Definição (Amostra bootstrap). Uma amostra bootstrap \(X_1^*, \ldots, X_n^*\) é uma amostra i.i.d. com distribuição \(\hat{F}_n\), isto é, um sorteio com reposição de \(X_1, \ldots, X_n\). Se \(\hat{F}_n^*\) é a sua distribuição empírica, a réplica bootstrap de \(\hat{\theta}_n\) é \(\hat{\theta}^* = T\left(\hat{F}_n^*\right)\).
Observação (O bootstrap como estimador plug-in). O erro padrão de \(\hat{\theta}_n\) é ele próprio um funcional de \(F\):
\[v(F) = \mathbb{V}_F\left[T\left(\hat{F}_n\right)\right].\]
O que se quer estimar é \(v(F)\), e o princípio plug-in da Aula 4 manda substituir \(F\) por \(\hat{F}_n\), produzindo \(v(\hat{F}_n)\). Isto é exatamente o bootstrap: \(v(\hat{F}_n)\) é a variância de \(\hat{\theta}^*\) quando as observações são sorteadas de \(\hat{F}_n\). A novidade em relação à Aula 4 é apenas o alvo: lá o plug-in era aplicado ao parâmetro, aqui ele é aplicado à distribuição amostral do estimador.
Observação (As duas fontes de erro). Em geral não há fórmula fechada para \(v(\hat{F}_n)\), e ele é aproximado por Monte Carlo. Sorteando \(B\) amostras bootstrap independentes e calculando as réplicas \(\hat{\theta}^*_1, \ldots, \hat{\theta}^*_B\),
\[\hat{\text{se}}^2_{\text{boot}} = \frac{1}{B-1}\sum_{b=1}^{B} \left(\hat{\theta}^*_b - \frac{1}{B}\sum_{c=1}^{B} \hat{\theta}^*_c\right)^2.\]
Há, portanto, dois erros sobrepostos. O primeiro, de trocar \(F\) por \(\hat{F}_n\), é estatístico e só diminui com \(n\). O segundo, de trocar \(v(\hat{F}_n)\) pela média de \(B\) réplicas, é computacional e desaparece quando \(B \to \infty\), com \(n\) fixo. Apenas o segundo está sob o nosso controle.
Teorema 2 (Consistência do bootstrap; sem demonstração). Suponha que \(\mathbb{V}[X_1] < \infty\) e seja \(T(F) = \int x \, dF\). Então, quase certamente,
\[\sup_{x \in \mathbb{R}}\left|\mathbb{P}^*\left( \sqrt{n}\left(\hat{\theta}^* - \hat{\theta}_n\right) \leq x\right) - \mathbb{P}\left(\sqrt{n}\left(\hat{\theta}_n - \theta\right) \leq x\right)\right| \longrightarrow 0,\]
em que \(\mathbb{P}^*\) denota a probabilidade condicional em \(X_1, \ldots, X_n\).
Observação. O Teorema 2 vale bem além da média: sob (A1) da Aula 4, a distribuição bootstrap de \(\sqrt{n}(\hat{\theta}^* - \hat{\theta}_n)\) aproxima a de \(\sqrt{n}(\hat{\theta}_n - \theta)\). A demonstração está em Singh (1981) e em Bickel and Freedman (1981). Há contraexemplos, no entanto: se \(F\) é Uniforme\((0,\vartheta)\) e \(T(F) = \vartheta\), o estimador é \(X_{(n)}\) e o bootstrap falha, pois \(\mathbb{P}^*\left(\hat{\theta}^* = \hat{\theta}_n\right) \to 1 - e^{-1}\), ao passo que a distribuição limite verdadeira é contínua.
Definição (Intervalo t). O intervalo t de nível \(1-\alpha\) para \(\theta\) é
\[\hat{\theta}_n \pm z_{1-0,5\alpha}\, \hat{\text{se}}_{\text{boot}}.\]
Definição (Intervalo percentil). Sejam \(\hat{\theta}^*_{(1)} \leq \ldots \leq \hat{\theta}^*_{(B)}\) as réplicas bootstrap ordenadas e \(q^*_{\beta}\) o quantil amostral de ordem \(\beta\) destas réplicas. O intervalo percentil de nível \(1-\alpha\) para \(\theta\) é
\[\left[q^*_{0,5\alpha},\ q^*_{1-0,5\alpha}\right].\]
Observação. O intervalo t usa o bootstrap apenas para estimar o erro padrão, e a sua validade depende da normalidade assintótica de \(\hat{\theta}_n\). O intervalo percentil usa a forma inteira da distribuição bootstrap e, por isso, não exige simetria: se existe uma transformação monótona \(\phi\) tal que \(\phi(\hat{\theta}_n) - \phi(\theta)\) tem distribuição simétrica e livre de \(\theta\), então o intervalo percentil é aproximadamente correto sem que seja necessário conhecer \(\phi\). Esta invariância por reparametrização é a sua principal vantagem.
Exercícios
Exercício 1 (Jackknife de funcionais lineares)
- Seja \(T(F) = \int g \, dF\). Mostre que \(\hat{b}_{\text{jack}} = 0\) e que
\[\hat{v}_{\text{jack}} = \frac{1}{n(n-1)}\sum_{i=1}^{n} \left(g(X_i) - \overline{g}\right)^2, \qquad \overline{g} = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}g(X_i).\]
Verifique que (a) generaliza o Exemplo 1.
Compare o resultado de (a) com o Corolário 2 da Aula 4, usando a função de influência obtida no Exemplo 5 daquela aula.
Complete a identidade usada no Exemplo 2, isto é, mostre que \(\sum_{j \neq i}\left(X_j - \bar{X}_{-i}\right)^2 = SS - n(n-1)^{-1}\left(X_i - \bar{X}\right)^2\).
Exercício 2 (Onde o jackknife falha)
Seja \(F\) contínua e \(T(F)\) a mediana, com \(n = 2m+1\) ímpar.
Mostre que \(\hat{\theta}_{-i}\) assume apenas dois valores distintos, \(X_{(m)}\) e \(X_{(m+2)}\), e determine quantos índices \(i\) produzem cada um deles.
Obtenha \(\hat{v}_{\text{jack}}\) em função de \(X_{(m+2)} - X_{(m)}\).
Compare o resultado de (b) com a variância assintótica obtida no Exemplo 7 da Aula 4. Argumente que \(\hat{v}_{\text{jack}}\) não é consistente.
Explique o resultado em termos da Observação que relaciona pseudo-valores e função de influência.
Exercício 3 (O bootstrap como plug-in)
Para \(T(F) = \int x \, dF\), obtenha \(v(\hat{F}_n)\) em forma fechada, isto é, calcule \(\mathbb{V}^*\left[\hat{\theta}^*\right]\) sem recorrer a Monte Carlo. Compare com \(S^2n^{-1}\).
Mostre que, no item (a), \(\mathbb{E}^*\left[\hat{\theta}^*\right] = \hat{\theta}_n\), e conclua que o bootstrap não detecta viés neste caso.
Seja \(N_i\) o número de vezes que \(X_i\) aparece em uma amostra bootstrap. Obtenha a distribuição conjunta de \((N_1, \ldots, N_n)\) e mostre que \(\mathbb{P}^*\left(N_i = 0\right) \to e^{-1}\).
Use (c) para explicar o contraexemplo do máximo de uniformes mencionado na Observação após o Teorema 2.
Exercício 4 (Intervalos de confiança)
Descreva, em pseudo-código, um algoritmo que produza os intervalos t e percentil a partir de \(X_1, \ldots, X_n\), \(B\) e \(\alpha\).
Mostre que o intervalo percentil é invariante por transformações monótonas, isto é, que se \(\phi\) é crescente, então o intervalo percentil para \(\phi(\theta)\) é a imagem por \(\phi\) do intervalo percentil para \(\theta\). O intervalo t tem esta propriedade?
Simule dados de uma distribuição assimétrica, por exemplo Exponencial, e compare a cobertura empírica dos dois intervalos para a variância, com \(n\) pequeno.
O intervalo t pode conter valores fora do espaço paramétrico, por exemplo variâncias negativas. Isto pode ocorrer com o intervalo percentil?