Aula 4: Função de influência
Data: 18/08/2026.
Leitura: Wasserman (2006), Capítulo 2.
Funcionais estatísticos
Definição (Funcional estatístico). Sejam \(\mathcal{D}\) um conjunto de funções de distribuição em \(\mathbb{R}\) e \(F \in \mathcal{D}\). Um funcional estatístico é uma função \(T: \mathcal{D} \to \mathbb{R}\), e \(T(F)\) é o parâmetro de interesse.
Observação. Em um modelo paramétrico, o parâmetro é um ponto de \(\mathbb{R}^d\) que indexa a distribuição. Aqui, ao contrário, o parâmetro é uma característica da distribuição, definida diretamente a partir dela e sem supor que \(F\) pertença a uma família indexada por uma quantidade de dimensão finita.
Exemplo 1 (Média). \(T(F) = \int x \, dF(x)\), com \(\mathcal{D} = \left\{F: \int |x| dF(x) < \infty\right\}\).
Exemplo 2 (Variância). \(T(F) = \int x^2 dF(x) - \left(\int x \, dF(x)\right)^2\), com \(\mathcal{D} = \left\{F: \int x^2 dF(x) < \infty\right\}\).
Exemplo 3 (Quantis). \(T(F) = \xi_p(F) = \inf\{x \in \mathbb{R}: F(x) \geq p\}\), para \(p \in (0,1)\) fixo. Se \(p = 2^{-1}\), \(T\) é a mediana.
Definição (Funcional linear). \(T\) é um funcional linear se existe \(g: \mathbb{R} \to \mathbb{R}\) tal que
\[T(F) = \int g(x) \, dF(x), \qquad \text{para todo } F \in \mathcal{D}.\]
Observação. O nome se justifica porque, se \(T\) é linear e \(\lambda \in [0,1]\), então \(T\left((1-\lambda)F + \lambda G\right) = (1-\lambda)T(F) + \lambda T(G)\), isto é, \(T\) é afim ao longo de misturas. O Exemplo 1 é linear, com \(g(x) = x\). Os Exemplos 2 e 3 não são: para a variância, o termo \(\left(\int x \, dF\right)^2\) é quadrático em \(F\).
Definição (Composição de funcionais lineares). \(T\) é uma composição de funcionais lineares se existem \(g_1, \ldots, g_k: \mathbb{R} \to \mathbb{R}\) e \(h: \mathbb{R}^k \to \mathbb{R}\) tais que
\[T(F) = h\left(\int g_1 \, dF, \ldots, \int g_k \, dF\right).\]
Exemplo 4 (A variância é uma composição). O funcional do Exemplo 2 é a composição obtida tomando \(g_1(x) = x\), \(g_2(x) = x^2\) e \(h(a,b) = b - a^2\).
Definição (Estimador plug-in). Sejam \(X_1, \ldots, X_n\) i.i.d. com distribuição \(F\) e \(\hat{F}_n\) a distribuição empírica. O estimador plug-in de \(T(F)\) é \(T(\hat{F}_n)\).
Lema 1 (Plug-in de um funcional linear). Se \(T(F) = \int g \, dF\), então
\[T(\hat{F}_n) = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}g(X_i).\]
Em particular, se \(\mathbb{V}[g(X_1)] < \infty\), então \(\mathbb{E}\left[T(\hat{F}_n)\right] = T(F)\) e \(\mathbb{V}\left[T(\hat{F}_n)\right] = n^{-1}\mathbb{V}[g(X_1)]\).
Prova. Como \(\hat{F}_n\) atribui massa \(n^{-1}\) a cada uma das observações \(X_1, \ldots, X_n\),
\[T(\hat{F}_n) = \int g(x) \, d\hat{F}_n(x) = \sum_{i=1}^{n}\frac{1}{n}g(X_i).\]
As duas últimas afirmações decorrem de \(\mathbb{E}[g(X_1)] = T(F)\), da linearidade da esperança e de \(g(X_1), \ldots, g(X_n)\) serem i.i.d. \(\blacksquare\)
Corolário 1. Nas condições do Lema 1, \(T(\hat{F}_n) \to T(F)\) quase certamente e
\[\sqrt{n}\left(T(\hat{F}_n) - T(F)\right) \xrightarrow{d} N\left(0, \mathbb{V}[g(X_1)]\right).\]
Prova. Decorre do Lema 1 que \(T(\hat{F}_n)\) é a média de \(n\) variáveis i.i.d. com esperança \(T(F)\) e variância finita. As conclusões decorrem da Lei Forte dos Grandes Números e do Teorema Central do Limite. \(\blacksquare\)
Lema 2 (Plug-in de uma composição). Se \(T(F) = h\left(\int g_1 dF, \ldots, \int g_k dF\right)\), com \(h\) contínua e \(\int |g_j| dF < \infty\) para todo \(j\), então \(T(\hat{F}_n) \to T(F)\) quase certamente.
Prova. Decorre do Lema 1 que a \(j\)-ésima coordenada de \(T(\hat{F}_n)\) é \(n^{-1}\sum_{i=1}^{n}g_j(X_i)\), que converge quase certamente a \(\int g_j dF\), pela Lei Forte dos Grandes Números. Como a interseção de \(k\) eventos de probabilidade \(1\) tem probabilidade \(1\), o vetor destas médias converge quase certamente. A conclusão decorre da continuidade de \(h\). \(\blacksquare\)
Observação. Os Lemas 1 e 2 esgotam os casos fáceis. Para um funcional linear, o plug-in é uma média amostral, e a Lei dos Grandes Números e o Teorema Central do Limite se aplicam diretamente. Para uma composição, a consistência decorre da continuidade, e a normalidade assintótica decorreria do método delta. Para um funcional qualquer, como o quantil do Exemplo 3, nenhum dos dois argumentos está disponível. A função de influência resolve este caso, mostrando que todo funcional suficientemente regular se comporta, assintoticamente, como um funcional linear.
Função de influência
Definição (Contaminação). Sejam \(x \in \mathbb{R}\) e \(\delta_x\) a distribuição degenerada em \(x\). Para \(\varepsilon \in [0,1]\), a contaminação de \(F\) por \(x\) é
\[F_{\varepsilon,x} = (1-\varepsilon)F + \varepsilon\delta_x.\]
Definição (Função de influência). A função de influência de \(T\) em \(F\) é
\[\text{IF}(x) = \lim_{\varepsilon \downarrow 0} \frac{T(F_{\varepsilon,x}) - T(F)}{\varepsilon},\]
quando o limite existe para todo \(x \in \mathbb{R}\).
Observação. A função de influência é a derivada de \(T\) na direção de \(\delta_x\), e mede o efeito sobre \(T(F)\) de uma contaminação infinitesimal da população por observações em \(x\). Nesta leitura, \(\text{IF}(x)\) descreve o quanto uma única observação em \(x\) influencia o estimador, o que explica o nome.
Exemplo 5 (Funcional linear). Se \(T(F) = \int g \, dF\), então \(\text{IF}(x) = g(x) - T(F)\). De fato, \(T(F_{\varepsilon,x}) = (1-\varepsilon)T(F) + \varepsilon g(x)\), de modo que \(T(F_{\varepsilon,x}) - T(F) = \varepsilon\left(g(x) - T(F)\right)\). Em particular, para a média, \(\text{IF}(x) = x - \mu\).
Exemplo 6 (Variância). Se \(T\) é o funcional do Exemplo 2, \(\mu = \int x \, dF\) e \(\sigma^2 = T(F)\), então \(\text{IF}(x) = (x-\mu)^2 - \sigma^2\). De fato, escrevendo \(m_2 = \int x^2 dF\), decorre do Exemplo 5 que as derivadas em \(\varepsilon = 0\) de \(\int x \, dF_{\varepsilon,x}\) e de \(\int x^2 dF_{\varepsilon,x}\) são \(x - \mu\) e \(x^2 - m_2\). Pela regra da cadeia aplicada a \(h(a,b) = b - a^2\) do Exemplo 4,
\[\text{IF}(x) = \left(x^2 - m_2\right) - 2\mu\left(x - \mu\right) = (x - \mu)^2 - \sigma^2.\]
Exemplo 7 (Quantis). Seja \(T(F) = \xi_p\) o funcional do Exemplo 3 e suponha que \(F\) é diferenciável em \(\xi_p\), com \(F'(\xi_p) = f(\xi_p) > 0\). Então
\[\text{IF}(x) = \frac{p - \mathbb{I}(x \leq \xi_p)}{f(\xi_p)}.\]
De fato, seja \(\xi_p(\varepsilon)\) o quantil de \(F_{\varepsilon,x}\), de modo que \((1-\varepsilon)F(\xi_p(\varepsilon)) + \varepsilon\mathbb{I}(x \leq \xi_p(\varepsilon)) = p\). Derivando esta identidade em \(\varepsilon = 0\), obtém-se
\[-F(\xi_p) + f(\xi_p)\,\xi_p'(0) + \mathbb{I}(x \leq \xi_p) = 0,\]
e a conclusão decorre de \(F(\xi_p) = p\). Em particular, para a mediana, \(\text{IF}(x) = \text{sinal}(x - \xi_{0,5}) \left(2f(\xi_{0,5})\right)^{-1}\).
Observação. Em todos os exemplos acima, \(\int \text{IF}(x) \, dF(x) = 0\). No Exemplo 5, porque \(\int (g - T(F)) dF = 0\); no Exemplo 6, porque \(\int \left((x-\mu)^2 - \sigma^2\right)dF = 0\); e no Exemplo 7, porque \(\int \left(p - \mathbb{I}(x \leq \xi_p)\right)dF = p - F(\xi_p) = 0\). Esta propriedade é geral e é o que permite interpretar \(\text{IF}\) como um desvio em torno de \(T(F)\).
Suposição (A1). \(T\) admite a expansão de von Mises em \(F\), isto é, para \(G\) em uma vizinhança de \(F\),
\[T(G) - T(F) = \int \text{IF}(x) \, d(G - F)(x) + R(G,F),\]
em que o resto satisfaz \(\sqrt{n}\,R(\hat{F}_n, F) \to 0\) em probabilidade. Além disso, \(\tau^2 = \int \text{IF}(x)^2 dF(x) \in (0,\infty)\).
Teorema 1 (Normalidade assintótica do plug-in). Sob (A1),
\[\sqrt{n}\left(T(\hat{F}_n) - T(F)\right) \xrightarrow{d} N\left(0, \tau^2\right).\]
Observação. A prova, que não faremos, consiste em notar que, por (A1) e por \(\int \text{IF} \, dF = 0\),
\[\sqrt{n}\left(T(\hat{F}_n) - T(F)\right) = \frac{1}{\sqrt{n}}\sum_{i=1}^{n}\text{IF}(X_i) + \sqrt{n}\,R(\hat{F}_n,F),\]
de modo que o Teorema Central do Limite se aplica ao primeiro termo e o segundo é desprezível. Em outras palavras, o Teorema 1 diz que todo funcional que satisfaz (A1) é, assintoticamente, o funcional linear associado a \(g = \text{IF}\). Comparando com o Corolário 1, o papel de \(\mathbb{V}[g(X_1)]\) passa a ser desempenhado por \(\tau^2\).
Corolário 2 (Erro padrão e intervalo de confiança). Sob (A1), se \(\widehat{\text{IF}}\) é a função de influência calculada em \(\hat{F}_n\) e \(\hat{\tau}^2 = n^{-1}\sum_{i=1}^{n} \widehat{\text{IF}}(X_i)^2\) é consistente para \(\tau^2\), então
\[T(\hat{F}_n) \pm z_{1-0,5\alpha}\,\frac{\hat{\tau}}{\sqrt{n}}\]
é um intervalo de confiança assintótico de nível \(1-\alpha\) para \(T(F)\).
Observação. A função de influência também mede a robustez do estimador. No Exemplo 5, \(\text{IF}\) é ilimitada quando \(g\) o é: uma única observação distante pode deslocar arbitrariamente a média. Já no Exemplo 7, \(\text{IF}\) é limitada por \(\left(f(\xi_p)\right)^{-1}\), qualquer que seja \(x\): nenhuma observação isolada desloca muito a mediana. A quantidade \(\sup_x |\text{IF}(x)|\) é chamada de sensibilidade a erros grosseiros e é uma das medidas clássicas de robustez (Hampel (1974)).
Exercícios
Exercício 1 (Funcionais e estimadores plug-in)
- Mostre que o funcional do Exemplo 2 satisfaz
\[T(\hat{F}_n) = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n} \left(X_i - \bar{X}\right)^2,\]
isto é, que o plug-in da variância é a variância amostral com
denominador $n$. Ele é não-viesado?
Exiba \(g_1, \ldots, g_k\) e \(h\) que representem a covariância como composição de funcionais lineares.
Mostre que o funcional do Exemplo 3 não é uma composição de funcionais lineares. Sugestão: composições são contínuas em \(F\) com respeito à convergência em distribuição.
Use o Teorema 2 da Aula 2 para mostrar que, se \(T\) é contínuo com respeito à norma do supremo, então \(T(\hat{F}_n) \to T(F)\) quase certamente. Este critério cobre o Exemplo 3?
Exercício 2 (Cálculo de funções de influência)
Obtenha a função de influência de \(T(F) = \int g \, dF\) quando \(g(x) = \mathbb{I}(x \leq t)\), com \(t\) fixo. Relacione o resultado com o Lema 1 da Aula 2.
Seja \(T(F) = h\left(\int g_1 dF, \ldots, \int g_k dF\right)\), com \(h\) diferenciável. Mostre que
\[\text{IF}(x) = \sum_{j=1}^{k}\frac{\partial h}{\partial a_j} \left(\theta_1,\ldots,\theta_k\right) \left(g_j(x) - \theta_j\right), \qquad \theta_j = \int g_j \, dF.\]
Verifique que (b) recupera o Exemplo 6.
Obtenha a função de influência da razão de médias, \(T(F) = \int g_1 dF \left(\int g_2 dF\right)^{-1}\), supondo \(\int g_2 dF \neq 0\).
Verifique que \(\int \text{IF} \, dF = 0\) em (b).
Exercício 3 (Consequências do Teorema 1)
Verifique que, para um funcional linear, o Teorema 1 e o Corolário 1 fornecem a mesma distribuição assintótica.
Use o Teorema 1 e o Exemplo 6 para obter um intervalo de confiança assintótico para a variância. De que momento de \(F\) a variância assintótica depende?
Use o Teorema 1 e o Exemplo 7 para obter a distribuição assintótica da mediana amostral. Por que o intervalo de confiança resultante é difícil de usar na prática?
O item (c) motiva as próximas aulas. Explique por que o bootstrap é uma alternativa atraente neste caso.
Exercício 4 (Robustez)
Compare \(\sup_x |\text{IF}(x)|\) para a média e para a mediana.
A média aparada de nível \(\alpha\) é definida por \(T(F) = (1-2\alpha)^{-1}\int_{\xi_{\alpha}}^{\xi_{1-\alpha}} x \, dF(x)\). Argumente, sem calcular, que a sua função de influência é limitada.
Um estimador com função de influência limitada é necessariamente preferível? Discuta em termos da variância assintótica \(\tau^2\) quando \(F\) é Normal.