Aula 3: Teoria VC

Data: 13/08/2026.

Leitura: van der Vaart and Wellner (1996), Capítulo 2.

Revisão de Classe de Glivenko-Cantelli

Sejam \(P\) uma probabilidade em \((\mathcal{X}, \mathcal{A})\) e \(X_1, \ldots, X_n\) i.i.d. com distribuição \(P\).

Definição (Medida empírica). A medida empírica de \(X_1, \ldots, X_n\) é definida por

\[P_n(A) = \frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\mathbb{I}(X_i \in A), \qquad A \in \mathcal{A}.\]

Definição (Classe de Glivenko-Cantelli). Seja \(\mathcal{C} \subseteq \mathcal{A}\). Dizemos que \(\mathcal{C}\) é uma classe de Glivenko-Cantelli para \(P\) se

\[\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} := \sup_{C \in \mathcal{C}} \left|P_n(C) - P(C)\right| \longrightarrow 0 \qquad \text{quase certamente}.\]

Se \(\mathcal{C}\) é uma classe de Glivenko-Cantelli para toda probabilidade \(P\), dizemos que \(\mathcal{C}\) é universal.

Observação. Para cada \(C \in \mathcal{A}\) fixo, \(P_n(C) \to P(C)\) quase certamente, pela Lei Forte dos Grandes Números. O conteúdo da definição está em o mesmo evento de probabilidade \(1\) servir simultaneamente a todos os \(C \in \mathcal{C}\). Também, \(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} \leq 1\) sempre, de modo que a definição só exclui classes em que o erro máximo não se anula.

Exemplo 1 (Semirretas). Sejam \(\mathcal{X} = \mathbb{R}\) e \(\mathcal{C} = \{(-\infty,x]: x \in \mathbb{R}\}\). Então \(P_n((-\infty,x]) = \hat{F}_n(x)\) e \(P((-\infty,x]) = F(x)\), de modo que

\[\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} = \sup_{x \in \mathbb{R}} \left|\hat{F}_n(x) - F(x)\right| = D_n.\]

Decorre do Teorema de Glivenko-Cantelli, o Teorema 2 da Aula 2, que \(D_n \to 0\) quase certamente. Portanto, \(\mathcal{C}\) é uma classe de Glivenko-Cantelli universal.

Exemplo 2 (Todos os borelianos). Sejam \(\mathcal{X} = [0,1]\), \(P\) a distribuição Uniforme\((0,1)\) e \(\mathcal{C} = \mathcal{B}([0,1])\) a classe de todos os subconjuntos borelianos de \([0,1]\). Tomando \(C = \{X_1, \ldots, X_n\}\), tem-se \(P_n(C) = 1\), pois todos os \(X_i\) pertencem a \(C\), e \(P(C) = 0\), pois \(C\) é finito e \(P\) é contínua. Logo,

\[\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} \geq \left|P_n(C) - P(C)\right| = 1,\]

para todo \(n\), e \(\mathcal{C}\) não é uma classe de Glivenko-Cantelli. Note que o argumento usa apenas os subconjuntos finitos de \([0,1]\): já a subclasse \(\mathcal{C}' \subseteq \mathcal{C}\) dos conjuntos finitos não é de Glivenko-Cantelli.

Observação. Os Exemplos 1 e 2 delimitam o problema desta aula. As semirretas formam uma classe pequena, e o erro máximo sobre elas se anula; os borelianos formam uma classe grande demais, e o erro máximo sobre eles é sempre \(1\). A pergunta é o que significa “pequena” aqui, isto é, que propriedade de \(\mathcal{C}\) decide entre os dois comportamentos. A resposta, dada na próxima seção, não depende de \(P\) nem da estrutura de \(\mathcal{X}\): é combinatória.

Dimensão de Vapnik-Chervonenkis

Ao longo desta aula, \(\mathcal{X}\) é um conjunto e \(\mathcal{C}\) é uma classe de subconjuntos de \(\mathcal{X}\).

Definição (Traço e fragmentação). Se \(A \subseteq \mathcal{X}\) é finito, o traço de \(\mathcal{C}\) em \(A\) é

\[\mathcal{C}_A = \{C \cap A: C \in \mathcal{C}\}.\]

Dizemos que \(\mathcal{C}\) fragmenta \(A\) se \(\mathcal{C}_A = 2^{A}\), isto é, se todo subconjunto de \(A\) pode ser obtido interceptando-se \(A\) com algum elemento de \(\mathcal{C}\).

Definição (Coeficiente de fragmentação). O coeficiente de fragmentação de \(\mathcal{C}\) é

\[s(\mathcal{C}, n) = \max\left\{\left|\mathcal{C}_A\right|: A \subseteq \mathcal{X}, |A| = n\right\}.\]

Definição (Dimensão de Vapnik-Chervonenkis). A dimensão VC de \(\mathcal{C}\) é

\[\text{VC}(\mathcal{C}) = \sup\left\{n \in \mathbb{N}: s(\mathcal{C}, n) = 2^n\right\}.\]

Observação. Como \(\left|\mathcal{C}_A\right| \leq 2^{|A|}\) sempre, \(s(\mathcal{C},n) \leq 2^n\). Assim, \(\text{VC}(\mathcal{C}) \geq n\) se e somente se existe algum \(A\) com \(|A| = n\) fragmentado por \(\mathcal{C}\). Para mostrar que \(\text{VC}(\mathcal{C}) = d\), portanto, basta exibir um conjunto de \(d\) pontos que é fragmentado e mostrar que nenhum conjunto de \(d+1\) pontos o é.

Exemplo 3 (Intervalos). Se \(\mathcal{X} = \mathbb{R}\) e \(\mathcal{C} = \{[a,b]: a \leq b\}\), então \(\text{VC}(\mathcal{C}) = 2\).

Prova. Sejam \(x_1 < x_2\) e \(A = \{x_1, x_2\}\). Tomando \([a,b]\) igual a \([x_1 - 1, x_1 - 1]\), \([x_1, x_1]\), \([x_2, x_2]\) e \([x_1, x_2]\), obtêm-se, respectivamente, \(\emptyset\), \(\{x_1\}\), \(\{x_2\}\) e \(\{x_1,x_2\}\). Logo, \(\mathcal{C}\) fragmenta \(A\) e \(\text{VC}(\mathcal{C}) \geq 2\).

Sejam \(x_1 < x_2 < x_3\) e \(A = \{x_1,x_2,x_3\}\). Se \(x_1, x_3 \in [a,b]\), então \(a \leq x_1\) e \(x_3 \leq b\). Como \(a \leq x_1 < x_2 < x_3 \leq b\), decorre que \(x_2 \in [a,b]\). Portanto, \(\{x_1,x_3\} \notin \mathcal{C}_A\), isto é, nenhum conjunto com \(3\) elementos é fragmentado. \(\blacksquare\)

Observação. O mesmo argumento mostra que a classe das semirretas, \(\mathcal{C} = \{(-\infty,t]: t \in \mathbb{R}\}\), tem \(\text{VC}(\mathcal{C}) = 1\): ela fragmenta \(\{x_1\}\), mas, se \(x_1 < x_2\), então \(x_2 \in (-\infty,t]\) implica \(x_1 \in (-\infty,t]\), de modo que \(\{x_2\} \notin \mathcal{C}_{\{x_1,x_2\}}\). Esta é a classe que gera a distribuição empírica da Aula 2.

Exemplo 4 (Retângulos). Se \(\mathcal{X} = \mathbb{R}^2\) e \(\mathcal{C}\) é a classe dos retângulos com lados paralelos aos eixos, \(\mathcal{C} = \{[a_1,b_1] \times [a_2,b_2]\}\), então \(\text{VC}(\mathcal{C}) = 4\).

Prova. Seja \(A = \{(0,1), (0,-1), (-1,0), (1,0)\}\) e \(S \subseteq A\). Tomando \(R\) como o menor retângulo que contém \(S\), tem-se \(R \cap A = S\). Por exemplo, se \(S = \{(0,1),(0,-1)\}\), então \(R = \{0\} \times [-1,1]\), que não contém \((\pm 1, 0)\). Logo, \(\mathcal{C}\) fragmenta \(A\) e \(\text{VC}(\mathcal{C}) \geq 4\).

Seja \(A\) com \(|A| = 5\) e escolha em \(A\) um ponto de primeira coordenada máxima, um de primeira coordenada mínima, um de segunda coordenada máxima e um de segunda coordenada mínima, desempatando arbitrariamente. Se \(S\) é o conjunto dos pontos escolhidos, então \(|S| \leq 4\) e existe \(y \in A - S\). Como \(S\) contém os extremos de \(A\) em cada coordenada, o menor retângulo que contém \(S\) é o menor retângulo que contém \(A\). Assim, todo \(R \in \mathcal{C}\) com \(S \subseteq R\) satisfaz \(y \in R\), isto é, \(S \notin \mathcal{C}_A\). \(\blacksquare\)

Os dois exemplos anteriores são de classes com dimensão VC obtida por inspeção direta. O exemplo a seguir requer um resultado auxiliar de geometria convexa.

Lema 1 (Radon). Se \(x_1, \ldots, x_{d+2} \in \mathbb{R}^d\), então existe uma partição de \(\{1,\ldots,d+2\}\) em \(I\) e \(J\) tal que

\[\text{conv}\left(\{x_i\}_{i \in I}\right) \cap \text{conv}\left(\{x_j\}_{j \in J}\right) \neq \emptyset.\]

Prova. O sistema \(\sum_{i=1}^{d+2}\lambda_i x_i = 0\) e \(\sum_{i=1}^{d+2}\lambda_i = 0\) tem \(d+1\) equações e \(d+2\) incógnitas. Portanto, admite solução \(\lambda \neq 0\). Sejam \(I = \{i: \lambda_i > 0\}\) e \(J = \{i: \lambda_i \leq 0\}\). Como \(\lambda \neq 0\) e \(\sum_i \lambda_i = 0\), \(I \neq \emptyset\) e \(S = \sum_{i \in I}\lambda_i = -\sum_{j \in J}\lambda_j > 0\). Assim,

\[z = \sum_{i \in I}\frac{\lambda_i}{S}x_i = \sum_{j \in J}\frac{-\lambda_j}{S}x_j\]

é combinação convexa de \(\{x_i\}_{i \in I}\) e de \(\{x_j\}_{j \in J}\). \(\blacksquare\)

Exemplo 5 (Semiespaços). Se \(\mathcal{X} = \mathbb{R}^d\) e \(\mathcal{C}\) é a classe dos semiespaços, \(\mathcal{C} = \{\{x: \langle w,x \rangle \geq b\}: w \in \mathbb{R}^d, b \in \mathbb{R}\}\), então \(\text{VC}(\mathcal{C}) = d+1\).

Prova. Sejam \(x_0 = 0\), \(x_i = e_i\) para \(1 \leq i \leq d\), e \(A = \{x_0, \ldots, x_d\}\). Dado \(S \subseteq A\), tome \(w\) tal que \(w_i = 1\) se \(x_i \in S\) e \(w_i = -1\) caso contrário, e tome \(b = -2^{-1}\) se \(x_0 \in S\) e \(b = 2^{-1}\) caso contrário. Como \(\langle w, x_i \rangle = w_i\) para \(i \geq 1\) e \(\langle w, x_0 \rangle = 0\), tem-se \(\{x: \langle w,x \rangle \geq b\} \cap A = S\). Logo, \(\mathcal{C}\) fragmenta \(A\) e \(\text{VC}(\mathcal{C}) \geq d+1\).

Seja \(A = \{x_1, \ldots, x_{d+2}\}\) e sejam \(I\) e \(J\) como no Lema 1, com \(z\) na interseção dos fechos convexos. Tome \(S = \{x_i\}_{i \in I}\) e suponha que exista \(C = \{x: \langle w,x \rangle \geq b\}\) tal que \(C \cap A = S\). Como \(C\) é convexo e \(S \subseteq C\), \(z \in C\) e \(\langle w,z \rangle \geq b\). Como \(C^c = \{x: \langle w,x \rangle < b\}\) é convexo e \(\{x_j\}_{j \in J} \subseteq C^c\), \(z \in C^c\) e \(\langle w,z \rangle < b\), uma contradição. Portanto, \(S \notin \mathcal{C}_A\). \(\blacksquare\)

Observação. A dimensão VC dos semiespaços é o número de parâmetros que os descrevem, \(d+1\). Esta coincidência não é acidental: classes definidas pelo sinal de funções em um espaço vetorial de dimensão \(d\) têm dimensão VC no máximo \(d\). Ela também não é uma regra: a classe \(\{\{x: \text{sen}(wx) \geq 0\}: w \in \mathbb{R}\}\) tem um único parâmetro e dimensão VC infinita.

Classes VC e classes de Glivenko-Cantelli

Dizemos que \(\mathcal{C}\) é uma classe VC se \(\text{VC}(\mathcal{C}) < \infty\). Esta seção mostra que toda classe VC é de Glivenko-Cantelli universal, no sentido da Aula 2.

Lema 2 (Sauer-Shelah, Sauer (1972); Shelah (1972)). Se \(\text{VC}(\mathcal{C}) = d < \infty\), então, para todo \(n \in \mathbb{N}\),

\[s(\mathcal{C},n) \leq \sum_{i=0}^{d}\binom{n}{i} \leq (n+1)^d.\]

O Lema 2 exibe uma dicotomia: ou \(s(\mathcal{C},n) = 2^n\) para todo \(n\), ou \(s(\mathcal{C},n)\) é limitado por um polinômio de grau \(\text{VC}(\mathcal{C})\). Não há comportamento intermediário. É esta transição que torna a dimensão VC útil: ela troca uma classe uma quantidade que pode ser exponencial por uma contagem polinomial. O próximo Teorema usa esta troca para mostrar que um supremo sobre uma classe não-enumerável pode ser controlado por uma classe de tamanho polinomial, similarmente ao que foi feito na Aula 2.

Teorema 1 (Desigualdade de Vapnik-Chervonenkis, Vapnik and Chervonenkis (1971)). Sejam \(X_1, \ldots, X_n\) i.i.d. com distribuição \(P\) e \(P_n\) a medida empírica. Para todo \(\varepsilon > 0\),

\[\mathbb{P}\left(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} > \varepsilon\right) \leq 8\,s(\mathcal{C},n)\exp\left(-\frac{n\varepsilon^2}{32}\right).\]

Observação. As constantes do Teorema 1 variam conforme a referência: a forma original de Vapnik and Chervonenkis (1971) é \(4\,s(\mathcal{C},2n)\exp(-8^{-1}n\varepsilon^2)\). Nenhuma delas é ótima, e nenhuma importa para as consequências assintóticas abaixo. Compare com o Teorema 5 da Aula 2, em que a constante \(2\) do DKW é exata: o preço da generalidade é a perda das constantes.

Corolário 1. Toda classe VC é de Glivenko-Cantelli universal.

Prova. Sejam \(d = \text{VC}(\mathcal{C}) < \infty\), \(P\) uma probabilidade qualquer e \(\varepsilon > 0\). Decorre do Lema 2 e do Teorema 1 que

\[\mathbb{P}\left(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} > \varepsilon\right) \leq 8(n+1)^d\exp\left(-\frac{n\varepsilon^2}{32}\right).\]

Usando o lado direito, decorre que \(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}}\) converge quase-certamente para \(0\). \(\blacksquare\)

Corolário 2. Quase certamente, \(\sup_{x \in \mathbb{R}}\left|\hat{F}_n(x) - F(x)\right| \to 0\).

Prova. Decorre da Observação do Exemplo 3 que a classe das semirretas tem dimensão VC igual a \(1\). A conclusão decorre do Corolário 1 e de \(P_n((-\infty,x]) = \hat{F}_n(x)\). \(\blacksquare\)

Observação. O Corolário 2 é o Teorema 2 da Aula 2, Glivenko-Cantelli, obtido agora sem nenhum argumento específico sobre funções de distribuição. Em compensação, a prova da Aula 2 é elementar, ao passo que esta depende do Lema 2 e do Teorema 1. O ganho está em que o mesmo argumento fornece, sem trabalho adicional, a convergência uniforme sobre retângulos, semiespaços e qualquer outra classe VC.

Observação. O supremo que define \(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}}\) é tomado sobre uma classe possivelmente não-enumerável e, em geral, exige cuidado com mensurabilidade. Nos exemplos desta aula, o supremo é atingido em uma subclasse enumerável e a dificuldade não aparece. O tratamento geral está em van der Vaart and Wellner (1996).

Demonstração da Desigualdade de Vapnik-Chervonenkis

A prova do Teorema 1 tem três passos. O primeiro substitui \(P\), que não é observável, por uma segunda amostra independente. O segundo observa que, feita esta substituição, trocar os papéis das duas amostras não altera a distribuição, o que permite introduzir sinais aleatórios. O terceiro condiciona nas amostras: fixados os pontos observados, a classe \(\mathcal{C}\) é indistinguível de uma classe finita, com no máximo \(s(\mathcal{C},n)\) elementos, e o Lema 2 se aplica. É apenas neste último passo que a dimensão VC entra.

Ao longo desta seção, \(X_1', \ldots, X_n'\) são i.i.d. com distribuição \(P\) e independentes de \(X_1, \ldots, X_n\), e \(P_n'\) é a medida empírica de \(X_1', \ldots, X_n'\). Também, \(\sigma_1, \ldots, \sigma_n\) são i.i.d. e independentes das demais variáveis, com \(\mathbb{P}(\sigma_i = 1) = \mathbb{P}(\sigma_i = -1) = 2^{-1}\).

Os dois lemas a seguir preparam o primeiro passo. Ao longo deles, \(A = \left\{\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} > \varepsilon\right\}\) e, em \(A\), \(C^*\) é um elemento de \(\mathcal{C}\) tal que \(|P_n(C^*) - P(C^*)| > \varepsilon\). Note que tanto \(A\) quanto \(C^*\) são funções de \(X_1, \ldots, X_n\). Também,

\[B = \left\{\left|P_n'(C^*) - P(C^*)\right| \leq \frac{\varepsilon}{2}\right\}.\]

Lema 3 (Transferência). \(A \cap B \subseteq \left\{\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}} > 2^{-1}\varepsilon\right\}\).

Prova. Em \(A \cap B\), decorre da desigualdade triangular que

\[\begin{align*} \left|P_n(C^*) - P_n'(C^*)\right| &\geq \left|P_n(C^*) - P(C^*)\right| - \left|P(C^*) - P_n'(C^*)\right| \\ &> \varepsilon - \frac{\varepsilon}{2} = \frac{\varepsilon}{2}. \end{align*}\]

A conclusão decorre de \(C^* \in \mathcal{C}\) e da definição de \(\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}}\) como supremo em \(\mathcal{C}\). \(\blacksquare\)

Lema 4 (Simetrização). Se \(n\varepsilon^2 \geq 2\), então

\[\mathbb{P}\left(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} > \varepsilon\right) \leq 2\,\mathbb{P}\left(\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}} > \frac{\varepsilon}{2}\right).\]

Prova. A prova usa dois fatos sobre \(B\).

O primeiro é que \(\mathbb{P}\left(B \mid X_1,\ldots,X_n\right) \geq 2^{-1}\). De fato, como \(C^*\) é função de \(X_1, \ldots, X_n\) e \(P_n'\) é independente destas, decorre do Lema 1 da Aula 2 que, dado \(X_1,\ldots,X_n\), \(nP_n'(C^*) \sim \text{Binomial}(n, P(C^*))\) e \(\mathbb{V}\left[P_n'(C^*) \mid X_1,\ldots,X_n\right] \leq (4n)^{-1}\). Assim, pela desigualdade de Chebyshev e por \(n\varepsilon^2 \geq 2\),

\[\mathbb{P}\left(B^c \,\middle|\, X_1,\ldots,X_n\right) \leq \frac{4}{\varepsilon^2}\cdot\frac{1}{4n} = \frac{1}{n\varepsilon^2} \leq \frac{1}{2}.\]

O segundo é que \(\mathbb{P}(A) \leq 2\,\mathbb{P}(A \cap B)\). De fato,

\[\begin{align*} \mathbb{P}(A \cap B) &= \mathbb{E}\left[\mathbb{E}\left[\mathbb{I}_A\mathbb{I}_B \mid X_1,\ldots,X_n\right]\right] \\ &= \mathbb{E}\left[\mathbb{I}_A\, \mathbb{P}\left(B \mid X_1,\ldots,X_n\right)\right] \\ &\geq \frac{1}{2}\mathbb{E}\left[\mathbb{I}_A\right] = \frac{1}{2}\mathbb{P}(A), \end{align*}\]

em que a primeira igualdade é a lei da esperança total, a segunda decorre de \(\mathbb{I}_A\) ser função de \(X_1,\ldots,X_n\), o que permite retirá-la da esperança condicional, e a desigualdade decorre do primeiro fato.

Combinando o segundo fato com o Lema 3,

\[\begin{align*} \mathbb{P}\left(\|P_n - P\|_{\mathcal{C}} > \varepsilon\right) &= \mathbb{P}(A) \\ &\leq 2\,\mathbb{P}(A \cap B) \\ &\leq 2\,\mathbb{P}\left(\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}} > \frac{\varepsilon}{2}\right). \end{align*}\]

\(\blacksquare\)

Lema 5 (Aleatorização por sinais). Para todo \(\varepsilon > 0\),

\[\mathbb{P}\left(\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}} > \frac{\varepsilon}{2}\right) \leq 2\,\mathbb{P}\left(\sup_{C \in \mathcal{C}} \left|\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\sigma_i \mathbb{I}(X_i \in C)\right| > \frac{\varepsilon}{4}\right).\]

Prova. Os pares \((X_i, X_i')\) são i.i.d. e, como \(X_i\) e \(X_i'\) têm a mesma distribuição e são independentes, \((X_i, X_i')\) e \((X_i', X_i)\) têm a mesma distribuição. Trocar \(X_i\) por \(X_i'\) nos índices em que \(\sigma_i = -1\), portanto, não altera a distribuição conjunta. Como esta troca equivale a multiplicar a \(i\)-ésima parcela por \(\sigma_i\),

\[\|P_n - P_n'\|_{\mathcal{C}} \stackrel{d}{=} \sup_{C \in \mathcal{C}}\left|\frac{1}{n} \sum_{i=1}^{n}\sigma_i\left(\mathbb{I}(X_i \in C) - \mathbb{I}(X_i' \in C)\right)\right|.\]

Pela desigualdade triangular, se o lado direito excede \(2^{-1}\varepsilon\), então ao menos um dos dois supremos

\[\sup_{C \in \mathcal{C}}\left|\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n} \sigma_i \mathbb{I}(X_i \in C)\right| \qquad \text{e} \qquad \sup_{C \in \mathcal{C}}\left|\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n} \sigma_i \mathbb{I}(X_i' \in C)\right|\]

excede \(4^{-1}\varepsilon\). Como ambos têm a mesma distribuição, a conclusão decorre da subaditividade. \(\blacksquare\)

Lema 6 (Contagem e Hoeffding). Para todo \(\varepsilon > 0\),

\[\mathbb{P}\left(\sup_{C \in \mathcal{C}} \left|\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\sigma_i \mathbb{I}(X_i \in C)\right| > \frac{\varepsilon}{4}\right) \leq 2\,s(\mathcal{C},n) \exp\left(-\frac{n\varepsilon^2}{32}\right).\]

Prova. Condicione em \(X_1, \ldots, X_n\) e seja \(A = \{X_1, \ldots, X_n\}\). A aplicação que leva \(C\) em \(\left(\mathbb{I}(X_1 \in C), \ldots, \mathbb{I}(X_n \in C)\right)\) assume no máximo \(\left|\mathcal{C}_A\right| \leq s(\mathcal{C},n)\) valores distintos. Portanto, o supremo em \(\mathcal{C}\) é um máximo sobre um conjunto \(V \subseteq \{0,1\}^n\) com \(|V| \leq s(\mathcal{C},n)\).

Fixe \(a \in V\) e defina \(Z_i = 2^{-1}(\sigma_i a_i + 1)\). As variáveis \(Z_1, \ldots, Z_n\) são independentes, \(\mathbb{P}(Z_i \in [0,1]) = 1\) e \(\mathbb{E}[Z_i] = 2^{-1}\). Como \(n^{-1}\sum_{i=1}^{n}\sigma_i a_i = 2(\bar{Z} - 2^{-1})\),

\[\left\{\left|\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\sigma_i a_i\right| > \frac{\varepsilon}{4}\right\} = \left\{\left|\bar{Z} - \mathbb{E}[\bar{Z}]\right| > \frac{\varepsilon}{8}\right\}.\]

Decorre do Teorema 3 da Aula 2, a desigualdade de Hoeffding, que esta probabilidade é no máximo \(2\exp(-2n(8^{-1}\varepsilon)^2) = 2\exp(-32^{-1}n\varepsilon^2)\). A conclusão decorre da subaditividade sobre os no máximo \(s(\mathcal{C},n)\) elementos de \(V\) e de se tomar a esperança em \(X_1, \ldots, X_n\). \(\blacksquare\)

Prova do Teorema 1. Se \(n\varepsilon^2 < 2\), então

\[8\,s(\mathcal{C},n)\exp\left(-\frac{n\varepsilon^2}{32}\right) \geq 8\exp\left(-\frac{1}{16}\right) > 1,\]

pois \(s(\mathcal{C},n) \geq 1\), e a desigualdade é trivial. Se \(n\varepsilon^2 \geq 2\), a conclusão decorre da composição dos Lemas 4, 5 e 6, cujos fatores \(2\) produzem a constante \(8\). \(\blacksquare\)

Observação. O Lema 6 é o análogo do Lema 2 da Aula 2: em ambos, um supremo sobre uma família não-enumerável é reduzido a um máximo sobre uma família finita, ao qual se aplica a desigualdade de Hoeffding. A diferença está em como a família finita é obtida. Na Aula 2, ela vem de discretizar \(\mathbb{R}\) em \(k\) pontos, ao custo do erro \(k^{-1}\); aqui, ela vem de condicionar na amostra, sem custo algum, e o seu tamanho é controlado pelo Lema 2 desta aula. Os dois fatores \(2\) dos Lemas 4 e 5, e o \(\varepsilon\) que se torna \(4^{-1}\varepsilon\), são o preço da simetrização.

Exercícios

Exercício 1 (Dimensão VC de classes simples)

  1. Mostre que, se \(\mathcal{C} \subseteq \mathcal{D}\), então \(\text{VC}(\mathcal{C}) \leq \text{VC}(\mathcal{D})\).

  2. Mostre que \(\mathcal{C}\) e \(\{C^c : C \in \mathcal{C}\}\) têm a mesma dimensão VC.

  3. Seja \(\mathcal{C}\) a classe de todos os subconjuntos finitos de \(\mathbb{R}\). Mostre que \(\text{VC}(\mathcal{C}) = \infty\). Relacione com o Exemplo 2.

  4. Mostre que a recíproca do Corolário 1 é falsa, isto é, exiba uma classe de Glivenko-Cantelli com dimensão VC infinita. Sugestão: em (c), tome \(P\) discreta.

Exercício 2 (Bolas e elipsoides)

  1. Mostre que a classe das bolas fechadas de \(\mathbb{R}^d\) tem dimensão VC igual a \(d+1\). Sugestão: a bola de centro \(c\) e raio \(r\) é o conjunto dos \(x\) tais que \(\|x\|^2 - 2\langle c,x \rangle + \|c\|^2 - r^2 \leq 0\); associe a cada \(x \in \mathbb{R}^d\) o ponto \((x, \|x\|^2) \in \mathbb{R}^{d+1}\) e use o Exemplo 5.

  2. Obtenha uma cota superior para a dimensão VC da classe dos conjuntos \(\{x : p(x) \geq 0\}\), em que \(p\) percorre os polinômios de grau no máximo \(k\) em \(\mathbb{R}^d\).

Exercício 3 (Lema de Sauer-Shelah)

  1. Prove o Lema 2 por indução em \(n + d\). Sugestão: para \(A = \{x_1,\ldots,x_n\}\) e \(A' = A - \{x_n\}\), relacione \(\left|\mathcal{C}_A\right|\) com \(\left|\mathcal{C}_{A'}\right|\) e com o traço da subclasse dos \(C\) tais que \(C\) e \(C \cup \{x_n\}\) produzem o mesmo traço em \(A'\).

  2. Verifique que \(\sum_{i=0}^{d}\binom{n}{i} \leq (n+1)^d\) e que, para \(n \geq d \geq 1\), \(\sum_{i=0}^{d}\binom{n}{i} \leq \left(en d^{-1}\right)^{d}\).

  3. Mostre que a cota do Lema 2 é atingida, exibindo uma classe com \(\text{VC}(\mathcal{C}) = d\) e \(s(\mathcal{C},n) = \sum_{i=0}^{d}\binom{n}{i}\).

Exercício 4 (Velocidade de convergência)

Seja \(\mathcal{C}\) uma classe VC com \(\text{VC}(\mathcal{C}) = d\).

  1. Use o Teorema 1 e o Lema 2 para mostrar que existe \(c > 0\), que não depende de \(P\), tal que

\[\mathbb{E}\left[\|P_n - P\|_{\mathcal{C}}\right] \leq c\sqrt{\frac{d\log n}{n}}.\]

Sugestão: proceda como no Exercício 5 da Aula 2.
  1. Compare, no caso das semirretas, a cota de (a) com a cota \(\mathbb{E}[D_n] \leq \sqrt{\pi(2n)^{-1}}\) obtida do DKW na Aula 2. Qual é o fator excedente e de onde ele vem?

  2. Explique por que a resposta de (b) não torna o Teorema 1 inútil.

Referências

Sauer, Norbert. 1972. “On the Density of Families of Sets.” Journal of Combinatorial Theory, Series A 13 (1): 145–47.
Shelah, Saharon. 1972. “A Combinatorial Problem; Stability and Order for Models and Theories in Infinitary Languages.” Pacific Journal of Mathematics 41 (1): 247–61.
van der Vaart, Aad W., and Jon A. Wellner. 1996. Weak Convergence and Empirical Processes: With Applications to Statistics. Springer.
Vapnik, Vladimir N., and Alexey Ya. Chervonenkis. 1971. “On the Uniform Convergence of Relative Frequencies of Events to Their Probabilities.” Theory of Probability and Its Applications 16 (2): 264–80.
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