Aula 7: Estimador de densidade por kernel
Data: 27/08/2026.
Leitura: Tsybakov (2009), Seção 1.2.
Estimador de densidade por kernel
Ao longo desta aula, \(X_1, \ldots, X_n\) são i.i.d. com função de distribuição \(F\) e densidade \(f\) em \(\mathbb{R}\), e \(\hat{F}_n\) é a distribuição empírica da Aula 2.
Exemplo 1 (Estimador baseado na distribuição empírica). Como \(f = F'\), para \(h > 0\) pequeno,
\[f(x) \approx \frac{F(x+h) - F(x-h)}{2h}.\]
Aplicando o princípio plug-in da Aula 4, isto é, substituindo \(F\) por \(\hat{F}_n\), obtém-se
\[\begin{align*} \hat{f}_n(x) &= \frac{\hat{F}_n(x+h) - \hat{F}_n(x-h)}{2h} \\ &= \frac{1}{2nh}\sum_{i=1}^{n}\mathbb{I}\left(x-h < X_i \leq x+h\right) \\ &= \frac{1}{nh}\sum_{i=1}^{n}K_0\left(\frac{X_i - x}{h}\right), \end{align*}\]
em que \(K_0(u) = 2^{-1}\mathbb{I}(-1 < u \leq 1)\) é o kernel uniforme. Assim, \(\hat{f}_n(x)\) conta as observações em uma janela de largura \(2h\) centrada em \(x\). Ao contrário do histograma da Aula 1, cujos intervalos são fixos, a janela acompanha o ponto \(x\).
Definição (Kernel). Um kernel é uma função \(K: \mathbb{R} \to \mathbb{R}\) integrável e tal que
\[\int K(u) \, du = 1 \qquad \text{e} \qquad R(K) = \int K(u)^2 \, du < \infty.\]
Para \(j \geq 0\), denote \(\kappa_j = \int |u|^j |K(u)| \, du \in [0, \infty]\).
Definição (Kernel de ordem \(k\), Tsybakov (2009)). Seja \(k \geq 1\) inteiro. Um kernel \(K\) é de ordem \(k\) se
\[\kappa_k < \infty \qquad \text{e} \qquad \int u^jK(u) \, du = 0, \quad \text{para } 1 \leq j \leq k.\]
Por convenção, todo kernel é de ordem \(0\).
Observação. Para \(k = 1\), as condições se reduzem a \(\kappa_1 < \infty\) e \(\int uK(u)\,du = 0\), e valem para todo kernel simétrico com primeiro momento finito. O papel da ordem aparece no Lema 4 e no Exercício 3: quanto maior \(k\), mais termos da expansão de Taylor de \(f\) se anulam no viés.
Definição (Estimador de densidade por kernel, Rosenblatt (1956); Parzen (1962)). Sejam \(K\) um kernel e \(h > 0\). O estimador de densidade por kernel (KDE) com kernel \(K\) e banda \(h\) é
\[\hat{f}_n(x) = \frac{1}{nh}\sum_{i=1}^{n} K\left(\frac{X_i - x}{h}\right).\]
Exemplo 2 (Kernels usuais). Os kernels abaixo são simétricos, de modo que \(\int uK(u)\,du = 0\), e de ordem \(1\).
| Kernel | \(K(u)\) | \(\kappa_2\) | \(R(K)\) |
|---|---|---|---|
| Uniforme | \(2^{-1}\mathbb{I}(\lvert u \rvert \leq 1)\) | \(3^{-1}\) | \(2^{-1}\) |
| Epanechnikov | \(4^{-1}3(1-u^2)\,\mathbb{I}(\lvert u \rvert \leq 1)\) | \(5^{-1}\) | \(5^{-1}3\) |
| Gaussiano | \((2\pi)^{-1/2}e^{-u^2/2}\) | \(1\) | \((2\sqrt{\pi})^{-1}\) |
O Exemplo 1 é o KDE com o kernel uniforme.
Observação. A banda \(h\) controla o compromisso da Aula 1. Com \(h\) pequeno, \(\hat{f}_n(x)\) usa poucas observações próximas de \(x\): pouco viés e muita variância. Com \(h\) grande, usa muitas observações, inclusive distantes: pouca variância e muito viés. As seções a seguir tornam este compromisso quantitativo.
Viés, variância e risco
Definição (Classe de Hölder, Tsybakov (2009)). Sejam \(\beta > 0\), \(L > 0\) e \(\ell\) o maior inteiro estritamente menor que \(\beta\). A classe de Hölder \(\Sigma(\beta, L)\) é o conjunto das funções \(f: \mathbb{R} \to \mathbb{R}\) que são \(\ell\) vezes diferenciáveis e tais que
\[\left|f^{(\ell)}(y) - f^{(\ell)}(x)\right| \leq L|y - x|^{\beta - \ell}, \qquad \text{para todos } x, y \in \mathbb{R}.\]
Em particular, se \(\beta \in (0, 1]\), então \(\ell = 0\) e a condição se reduz a \(|f(y) - f(x)| \leq L|y - x|^{\beta}\). Se \(\beta = 2\), então \(\ell = 1\) e \(f'\) é \(L\)-Lipschitz, o que vale, por exemplo, quando \(|f''| \leq L\).
Suposição (A1) (Suavidade). \(f \in \Sigma(\beta, L)\) para algum \(\beta > 0\) e algum \(L > 0\).
Ao longo desta seção, \(\ell\) é o maior inteiro estritamente menor que \(\beta\), e \(C > 0\) denota uma constante que depende apenas de \(\beta\), \(L\) e \(K\), e não de \(n\), \(h\) ou \(x\). Quanto maior \(\beta\), mais suave é \(f\).
Lema 1 (Decomposição do risco). Para todo \(x \in \mathbb{R}\),
\[\text{MSE}\left(\hat{f}_n(x)\right) := \mathbb{E}\left[\left(\hat{f}_n(x) - f(x)\right)^2\right] = \left(\mathbb{E}\left[\hat{f}_n(x)\right] - f(x)\right)^2 + \mathbb{V}\left[\hat{f}_n(x)\right].\]
Prova. Escreva \(\mu = \mathbb{E}[\hat{f}_n(x)]\). Então
\[\begin{align*} \mathbb{E}\left[\left(\hat{f}_n(x) - f(x)\right)^2\right] &= \mathbb{E}\left[\left(\hat{f}_n(x) - \mu\right)^2\right] + 2(\mu - f(x))\,\mathbb{E}\left[\hat{f}_n(x) - \mu\right] + (\mu - f(x))^2 \\ &= \mathbb{V}\left[\hat{f}_n(x)\right] + (\mu - f(x))^2, \end{align*}\]
pois \(\mathbb{E}[\hat{f}_n(x) - \mu] = 0\). \(\blacksquare\)
Lema 2 (Esperança e variância do KDE). Para todo \(x \in \mathbb{R}\),
\[\mathbb{E}\left[\hat{f}_n(x)\right] = \int K(u)f(x+uh)\,du \qquad \text{e} \qquad \mathbb{V}\left[\hat{f}_n(x)\right] \leq \frac{1}{nh}\int K(u)^2 f(x+uh)\,du.\]
Prova. Seja \(Z_i = h^{-1}K\left((X_i - x)h^{-1}\right)\), de modo que \(\hat{f}_n(x) = n^{-1}\sum_{i=1}^{n}Z_i\), com \(Z_1, \ldots, Z_n\) i.i.d. Com a mudança de variáveis \(y = x + uh\),
\[\mathbb{E}[Z_1] = \frac{1}{h}\int K\left(\frac{y-x}{h}\right)f(y)\,dy = \int K(u)f(x+uh)\,du,\]
o que prova a primeira afirmação. Para a segunda, como \(\mathbb{V}[\hat{f}_n(x)] = n^{-1}\mathbb{V}[Z_1] \leq n^{-1}\mathbb{E}[Z_1^2]\), a mesma mudança de variáveis fornece
\[\mathbb{E}[Z_1^2] = \frac{1}{h^2}\int K\left(\frac{y-x}{h}\right)^2 f(y)\,dy = \frac{1}{h}\int K(u)^2 f(x+uh)\,du. \qquad \blacksquare\]
Lema 3 (Expansão de Taylor). Sob (A1), para todos \(x, t \in \mathbb{R}\),
\[f(x+t) = \sum_{j=0}^{\ell}\frac{f^{(j)}(x)}{j!}t^j + R_x(t), \qquad \text{com} \qquad |R_x(t)| \leq \frac{L}{\ell!}|t|^{\beta}.\]
Prova. Se \(\ell = 0\), então \(R_x(t) = f(x+t) - f(x)\) e a conclusão é exatamente (A1). Se \(\ell \geq 1\), a fórmula de Taylor com resto de Lagrange fornece \(\xi\) entre \(x\) e \(x+t\) tal que
\[f(x+t) = \sum_{j=0}^{\ell-1}\frac{f^{(j)}(x)}{j!}t^j + \frac{f^{(\ell)}(\xi)}{\ell!}t^\ell.\]
Somando e subtraindo \(f^{(\ell)}(x)t^\ell(\ell!)^{-1}\), obtém-se a expansão do enunciado com \(R_x(t) = \left(f^{(\ell)}(\xi) - f^{(\ell)}(x)\right)t^\ell(\ell!)^{-1}\). Como \(|\xi - x| \leq |t|\), decorre de (A1) que \(\left|f^{(\ell)}(\xi) - f^{(\ell)}(x)\right| \leq L|t|^{\beta - \ell}\). \(\blacksquare\)
Lema 4 (Viés do KDE). Sob (A1), se \(K\) é um kernel de ordem \(\ell\) com \(\kappa_\beta < \infty\), então, para todos \(x \in \mathbb{R}\) e \(h > 0\),
\[\int K(u)f(x+uh)\,du - f(x) = \int K(u)R_x(uh)\,du \qquad \text{e} \qquad \left|\mathbb{E}\left[\hat{f}_n(x)\right] - f(x)\right| \leq Ch^{\beta}.\]
Prova. Como \(\int K = 1\), decorre dos Lemas 2 e 3 que
\[\begin{align*} \int K(u)f(x+uh)\,du - f(x) &= \int K(u)\left(f(x+uh) - f(x)\right)du \\ &= \int K(u)\left(\sum_{j=1}^{\ell}\frac{f^{(j)}(x)}{j!}(uh)^j + R_x(uh)\right)du \\ &= \sum_{j=1}^{\ell}\frac{f^{(j)}(x)h^j}{j!}\int u^jK(u)\,du + \int K(u)R_x(uh)\,du \\ &= \int K(u)R_x(uh)\,du. \end{align*}\]
A segunda igualdade é a expansão de Taylor do Lema 3 com \(t = uh\). A última decorre de \(K\) ter ordem \(\ell\), isto é, de \(\int u^jK(u)\,du = 0\) para \(1 \leq j \leq \ell\). Pelo Lema 2, o lado esquerdo é o viés de \(\hat{f}_n(x)\), e pelo Lema 3,
\[\left|\int K(u)R_x(uh)\,du\right| \leq \frac{L}{\ell!}h^{\beta}\int |u|^{\beta}|K(u)|\,du = \frac{L\kappa_\beta}{\ell!}h^{\beta}. \qquad \blacksquare\]
Observação (O papel da série de Taylor). A prova do Lema 4 é o centro desta aula. A série de Taylor decompõe \(f(x+uh) - f(x)\) em um polinômio de grau \(\ell\) em \(uh\) e um resto de ordem \(|uh|^{\beta}\). Ao integrar contra \(K\), cada termo do polinômio é multiplicado por um momento de \(K\), e a ordem \(\ell\) anula exatamente esses momentos. O viés, portanto, é inteiramente determinado pelo resto de Taylor. Com um kernel de ordem menor, algum termo do polinômio sobreviveria e dominaria o viés; com \(f\) menos suave, o próprio resto seria maior.
Lema 5 (Cota superior para \(f\)). Sob (A1), se \(K\) é um kernel limitado de ordem \(\ell\) com \(\kappa_\beta < \infty\), então \(f\) é limitada.
Prova. Tomando \(h = 1\) na identidade do Lema 4,
\[f(x) = \int K(u)f(x+u)\,du - \int K(u)R_x(u)\,du.\]
O primeiro termo é, em módulo, no máximo \(\sup_u |K(u)| \int f = \sup_u |K(u)|\). Pelo Lema 3, o segundo é, em módulo, no máximo \(L\kappa_\beta(\ell!)^{-1}\). \(\blacksquare\)
Observação. O Lema 5 é o análogo do Lema 2 da Aula 1: a suavidade de \(f\), junto com \(\int f = 1\), impede que \(f\) seja arbitrariamente grande. Note que a prova reaproveita a mesma expansão de Taylor usada no viés.
Corolário 1 (Variância do KDE). Sob as hipóteses do Lema 5, para todos \(x \in \mathbb{R}\) e \(h > 0\),
\[\mathbb{V}\left[\hat{f}_n(x)\right] \leq \frac{C}{nh}.\]
Prova. Pelo Lema 2, \(\mathbb{V}[\hat{f}_n(x)] \leq (nh)^{-1}\sup_y f(y)\int K^2\). A conclusão decorre do Lema 5 e de \(R(K) < \infty\). \(\blacksquare\)
Teorema 1 (Risco do KDE). Sob (A1), se \(K\) é um kernel limitado de ordem \(\ell\) com \(\kappa_\beta < \infty\), então, para todos \(x \in \mathbb{R}\) e \(h > 0\),
\[\text{MSE}\left(\hat{f}_n(x)\right) \leq C\left(h^{2\beta} + \frac{1}{nh}\right).\]
Em particular, tomando \(h = n^{-1/(2\beta+1)}\),
\[\sup_{x \in \mathbb{R}}\text{MSE}\left(\hat{f}_n(x)\right) \leq 2C\,n^{-\frac{2\beta}{2\beta+1}}.\]
Prova. A primeira cota decorre do Lema 1, do Lema 4 e do Corolário 1. Para \(h = n^{-1/(2\beta+1)}\), os dois termos coincidem:
\[h^{2\beta} = n^{-\frac{2\beta}{2\beta+1}} \qquad \text{e} \qquad \frac{1}{nh} = n^{-1 + \frac{1}{2\beta+1}} = n^{-\frac{2\beta}{2\beta+1}}.\]
Como a cota não depende de \(x\), ela também vale para o supremo. \(\blacksquare\)
Observação (Taxas). A escolha \(h \asymp n^{-1/(2\beta+1)}\) equilibra o viés ao quadrado, que cresce com \(h\), e a variância, que decresce com \(h\). Para \(\beta \leq 1\), nenhum momento de \(K\) precisa se anular. Em particular, para \(\beta = 1\), \(f\) é Lipschitz, o que vale sob a suposição \(|f'| \leq L\) da Aula 1, e a taxa é \(n^{-2/3}\), a mesma do histograma no Teorema 1 da Aula 1. Para \(\beta = 2\), basta um kernel simétrico, e a taxa é \(n^{-4/5}\). Quando \(\beta \to \infty\), a taxa se aproxima de \(n^{-1}\), a taxa com que \(\hat{F}_n\) estima \(F\) na Aula 2. O preço de explorar \(\beta > 2\) é que kernels de ordem \(2\) ou mais assumem valores negativos (Exercício 3).
Observação. O Teorema 1 determina apenas a ordem da banda, \(h \asymp n^{-1/(2\beta+1)}\). Multiplicar \(h\) por uma constante não altera a taxa, mas altera o risco, e a melhor constante depende de \(f\), que é desconhecida. Escolher \(h\) a partir dos dados é o problema da Aula 8.
Exercícios
Exercício 1 (Propriedades do KDE)
Mostre que, se \(K \geq 0\), então \(\hat{f}_n\) é uma densidade, isto é, \(\hat{f}_n \geq 0\) e \(\int \hat{f}_n(x)\,dx = 1\).
Verifique os valores de \(\kappa_2\) e \(R(K)\) na tabela do Exemplo 2.
Mostre que \(\hat{f}_n\) herda a regularidade de \(K\): se \(K\) é contínuo, então \(\hat{f}_n\) é contínua; se \(K\) é diferenciável, então \(\hat{f}_n\) é diferenciável. Isto vale para o histograma?
Exercício 2 (O papel da simetria)
Suponha (A1) com \(\beta = 2\), \(\kappa_2 < \infty\) e \(\int uK(u)\,du = m \neq 0\). Mostre que \(\mathbb{E}[\hat{f}_n(x)] - f(x) = hmf'(x) + O(h^2)\).
Conclua que, neste caso, o viés é de ordem \(h\) e a taxa do MSE é \(n^{-2/3}\), e não \(n^{-4/5}\). Identifique, na prova do Lema 4, qual termo da série de Taylor deixa de se anular.
Exercício 3 (Kernels de ordem superior)
Seja \(\phi\) a densidade da Normal padrão. Mostre que \(K(u) = 2^{-1}(3 - u^2)\phi(u)\) é um kernel de ordem \(3\).
Mostre que, se \(K\) tem ordem \(k \geq 2\), então \(K\) assume valores negativos. Que consequência isto tem para \(\hat{f}_n\)?
Suponha que \(f \in \Sigma(4, L) \cap \Sigma(2, L)\), mas que se usa um kernel de ordem \(1\) com \(\kappa_2 < \infty\). Que taxa o Teorema 1 garante? Relacione com a saturação do histograma no Exercício 1 da Aula 1.
Exercício 4 (Risco integrado)
- Mostre que
\[\int \mathbb{V}\left[\hat{f}_n(x)\right]dx \leq \frac{R(K)}{nh},\]
sem supor que $f$ é limitada. Compare com o Teorema 2 da Aula 1.
- Explique por que a cota pontual do Lema 4 não pode ser integrada em \(\mathbb{R}\) para obter uma cota para o MISE. Que tipo de hipótese sobre \(f\) substituiria (A1) no caso integrado?
Exercício 5 (Outra cota para \(f\))
Suponha (A1) com \(\beta = 2\). Somando as expansões de Taylor de \(f(x+t)\) e \(f(x-t)\) e integrando em \(t \in [0,1]\), mostre que \(f(x) \leq 2^{-1} + 6^{-1}L\), sem usar kernel algum.
Calcule a cota do Lema 5 para o kernel uniforme e compare com (a).