Aula 8: Estimação não-viesada do risco
Data: 01/09/2026.
Leitura: Tsybakov (2009), Seção 1.4.
Estimação não-viesada do risco
Ao longo desta aula, \(X_1, \ldots, X_n\) são i.i.d. com densidade \(f\), \(K\) é um kernel e, para enfatizar a dependência na banda, escrevemos
\[\hat{f}_h(x) = \frac{1}{nh}\sum_{i=1}^{n}K\left(\frac{X_i - x}{h}\right)\]
para o KDE da Aula 7. Supomos também que \(\int f^2 < \infty\).
A Aula 7 mostrou que a banda deve ser da ordem de \(n^{-1/(2\beta+1)}\), mas que a melhor constante depende de \(f\), que é desconhecida. O objetivo desta aula é estimar o risco de \(\hat{f}_h\) a partir dos dados, para então escolher \(h\) minimizando essa estimativa.
Definição (Risco quadrático integrado). O risco quadrático integrado de \(\hat{f}_h\) é
\[\text{MISE}(h) = \mathbb{E}\left[\int \left(\hat{f}_h(x) - f(x)\right)^2 dx\right].\]
Lema 1 (Decomposição em três termos). Para todo \(h > 0\),
\[\text{MISE}(h) = A(h) - 2B(h) + \int f(x)^2\,dx,\]
em que
\[A(h) = \mathbb{E}\left[\int \hat{f}_h(x)^2\,dx\right] \qquad \text{e} \qquad B(h) = \mathbb{E}\left[\int \hat{f}_h(x)f(x)\,dx\right].\]
Prova. Abrindo o quadrado,
\[\begin{align*} \text{MISE}(h) &= \mathbb{E}\left[\int \left(\hat{f}_h(x)^2 - 2\hat{f}_h(x)f(x) + f(x)^2\right)dx\right] \\ &= \mathbb{E}\left[\int \hat{f}_h(x)^2\,dx\right] - 2\,\mathbb{E}\left[\int \hat{f}_h(x)f(x)\,dx\right] + \int f(x)^2\,dx, \end{align*}\]
em que a segunda igualdade usa a linearidade da esperança e que \(\int f^2\) não é aleatório. \(\blacksquare\)
Observação (O terceiro termo). O termo \(\int f^2\) é desconhecido, mas não depende de \(h\). Portanto, minimizar \(\text{MISE}(h)\) em \(h\) é equivalente a minimizar
\[J(h) = \text{MISE}(h) - \int f(x)^2\,dx = A(h) - 2B(h),\]
e não é necessário estimar \(\int f^2\). Basta estimar \(A(h)\) e \(B(h)\).
Observação (Por que o risco integrado). Para o MSE em um ponto \(x\), a mesma abertura do quadrado produziria o termo \(f(x)\,\mathbb{E}[\hat{f}_h(x)]\), que envolve o valor de \(f\) em um único ponto. Já no risco integrado, o termo cruzado é uma integral contra \(f\), isto é, uma esperança com respeito à distribuição dos dados. É isto que permitirá estimá-lo por uma média sobre a amostra.
Lema 2 (O primeiro termo). \(\int \hat{f}_h(x)^2\,dx\) é um estimador não-viesado de \(A(h)\).
Prova. \(\int \hat{f}_h^2\) é uma função dos dados e, pela definição de \(A(h)\), a sua esperança é \(A(h)\). \(\blacksquare\)
Observação. O Lema 2 é imediato porque \(A(h)\) depende apenas do estimador, e não de \(f\). Toda a dificuldade está em \(B(h)\).
Observação (Uma ideia natural). Como \(f\) é a densidade dos dados, \(\int \hat{f}_h(x)f(x)\,dx\) é a média de \(\hat{f}_h\) com respeito à distribuição que gerou a amostra. Isto sugere estimar esta integral pela média de \(\hat{f}_h\) nos pontos observados,
\[\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\hat{f}_h(X_i).\]
A justificativa seria a do Lema 1 da Aula 4: se \(g\) é uma função fixa, então \(\mathbb{E}\left[n^{-1}\sum_{i}g(X_i)\right] = \int g f\). O problema é que \(\hat{f}_h\) não é fixa, pois foi construída a partir dos próprios \(X_1, \ldots, X_n\). Assim, cada \(X_i\) entra duas vezes em \(\hat{f}_h(X_i)\): como ponto de avaliação e como uma das observações que definem \(\hat{f}_h\). Em particular, a parcela \(j = i\) da soma que define \(\hat{f}_h(X_i)\) vale \(K(0)(nh)^{-1}\), qualquer que seja a amostra, e não há parcela análoga em \(\int \hat{f}_h f\). Isto sugere que o estimador acima é viesado. Para confirmar, é preciso comparar a sua esperança com \(B(h)\), o que é feito nos dois lemas a seguir.
Lema 3 (O segundo termo e uma observação nova). Seja \(X_{n+1}\) com densidade \(f\), independente de \(X_1, \ldots, X_n\). Então
\[\int \hat{f}_h(x)f(x)\,dx = \mathbb{E}\left[\hat{f}_h(X_{n+1}) \,\middle|\, X_1,\ldots,X_n\right]\]
e, para todo \(h > 0\),
\[B(h) = \mathbb{E}\left[\hat{f}_h(X_{n+1})\right] = \frac{1}{h}\mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_2 - X_1}{h}\right)\right].\]
Prova. Condicionalmente a \(X_1, \ldots, X_n\), \(\hat{f}_h\) é uma função fixa e \(X_{n+1}\) tem densidade \(f\), o que prova a primeira identidade. Tomando a esperança dos dois lados, a lei da esperança total fornece \(B(h) = \mathbb{E}[\hat{f}_h(X_{n+1})]\). Por fim,
\[\begin{align*} \mathbb{E}\left[\hat{f}_h(X_{n+1})\right] &= \frac{1}{nh}\sum_{j=1}^{n} \mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_j - X_{n+1}}{h}\right)\right] \\ &= \frac{1}{h}\mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_2 - X_1}{h}\right)\right], \end{align*}\]
pois, como \(X_1, \ldots, X_{n+1}\) são i.i.d., cada par \((X_j, X_{n+1})\) tem a mesma distribuição que \((X_2, X_1)\). \(\blacksquare\)
Lema 4 (Viés do estimador ingênuo). Para todo \(h > 0\),
\[\mathbb{E}\left[\frac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}\hat{f}_h(X_i)\right] = \frac{K(0)}{nh} + \frac{n-1}{n}B(h).\]
Prova. Como os \(X_i\) são i.i.d., basta calcular \(\mathbb{E}[\hat{f}_h(X_1)]\). A diferença em relação ao Lema 3 é que o ponto de avaliação, \(X_1\), é agora uma das observações usadas em \(\hat{f}_h\). Separando a parcela \(j = 1\),
\[\begin{align*} \mathbb{E}\left[\hat{f}_h(X_1)\right] &= \frac{1}{nh}K(0) + \frac{1}{nh}\sum_{j=2}^{n} \mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_j - X_1}{h}\right)\right] \\ &= \frac{K(0)}{nh} + \frac{n-1}{n}\cdot\frac{1}{h} \mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_2 - X_1}{h}\right)\right] \\ &= \frac{K(0)}{nh} + \frac{n-1}{n}B(h), \end{align*}\]
em que a última igualdade decorre do Lema 3. \(\blacksquare\)
Observação (O problema). Os Lemas 3 e 4 diferem apenas no ponto de avaliação. No Lema 3, \(X_{n+1}\) é independente de todas as observações, e as \(n\) parcelas se comportam da mesma forma. No Lema 4, a parcela \(j = 1\) é substituída pela constante \(K(0)(nh)^{-1}\), e apenas as \(n - 1\) parcelas restantes se comportam como no Lema 3. O viés do estimador ingênuo é, portanto, \(K(0)(nh)^{-1} - n^{-1}B(h)\), confirmando a suspeita da Observação anterior: \(X_i\) “enxerga a si mesma”. A parcela \(K(0)(nh)^{-1}\) explode quando \(h \to 0\). Para dados distintos e \(K \geq 0\) com máximo em \(0\), o critério ingênuo \(\int \hat{f}_h^2 - 2n^{-1}\sum_i \hat{f}_h(X_i)\) se comporta como \((R(K) - 2K(0))(nh)^{-1}\) para \(h\) pequeno e, como \(R(K) \leq K(0)\int K = K(0)\), tende a \(-\infty\) (Exercício 2). Minimizá-lo levaria sempre a \(h \to 0\), isto é, a um estimador que apenas reproduz os dados.
Validação cruzada
A solução para o problema do Lema 4 é a mesma ideia do jackknife da Aula 6: calcular o estimador em \(X_i\) sem usar \(X_i\).
Definição (KDE de exclusão). Para \(1 \leq i \leq n\), o KDE calculado sem a \(i\)-ésima observação é
\[\hat{f}_{h,-i}(x) = \frac{1}{(n-1)h}\sum_{j \neq i} K\left(\frac{X_j - x}{h}\right).\]
Definição (Validação cruzada, Rudemo (1982)). O critério de validação cruzada e a banda escolhida por ele são
\[\text{CV}(h) = \int \hat{f}_h(x)^2\,dx - \frac{2}{n}\sum_{i=1}^{n}\hat{f}_{h,-i}(X_i) \qquad \text{e} \qquad \hat{h}_{\text{CV}} = \arg\min_{h > 0}\text{CV}(h).\]
Teorema 1 (Estimação não-viesada do risco). Para todo \(h > 0\),
\[\mathbb{E}\left[\text{CV}(h)\right] = J(h) = \text{MISE}(h) - \int f(x)^2\,dx.\]
Prova. Como \(\hat{f}_{h,-i}\) não depende de \(X_i\) e os \(X_j\) são i.i.d.,
\[\begin{align*} \mathbb{E}\left[\hat{f}_{h,-i}(X_i)\right] &= \frac{1}{(n-1)h}\sum_{j \neq i} \mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_j - X_i}{h}\right)\right] \\ &= \frac{1}{h}\mathbb{E}\left[K\left(\frac{X_2 - X_1}{h}\right)\right] \\ &= B(h), \end{align*}\]
em que a última igualdade é o Lema 3. Assim, \(\mathbb{E}\left[2n^{-1}\sum_i \hat{f}_{h,-i}(X_i)\right] = 2B(h)\). A conclusão decorre do Lema 2 e da Observação sobre o terceiro termo. \(\blacksquare\)
Observação. A diferença em relação ao estimador ingênuo está inteiramente na parcela \(j = i\). Ao excluí-la, \(X_i\) passa a se comportar, para \(\hat{f}_{h,-i}\), como uma observação nova e independente, exatamente como a observação \(X_{n+1}\) do Lema 3. Note também que \(\mathbb{E}[\hat{f}_{h,-i}(x)] = \mathbb{E}[\hat{f}_h(x)]\): a esperança do KDE não depende do tamanho da amostra, de modo que remover uma observação não introduz viés em \(B(h)\).
Lema 5 (Cálculo eficiente). Seja \(\bar{K}(v) = \int K(t)K(t+v)\,dt\). Então
\[\text{CV}(h) = \frac{1}{n^2h}\sum_{i=1}^{n}\sum_{j=1}^{n} \bar{K}\left(\frac{X_j - X_i}{h}\right) - \frac{2}{n(n-1)h}\sum_{i=1}^{n}\sum_{j \neq i} K\left(\frac{X_j - X_i}{h}\right).\]
Prova. Para o primeiro termo, expandindo o quadrado,
\[\int \hat{f}_h(x)^2\,dx = \frac{1}{n^2h^2}\sum_{i=1}^{n}\sum_{j=1}^{n} \int K\left(\frac{X_i - x}{h}\right)K\left(\frac{X_j - x}{h}\right)dx.\]
Com a mudança de variáveis \(t = (X_i - x)h^{-1}\), tem-se \((X_j - x)h^{-1} = t + (X_j - X_i)h^{-1}\) e \(dx = h\,dt\), de modo que cada integral vale \(h\bar{K}\left((X_j - X_i)h^{-1}\right)\). O segundo termo decorre diretamente da definição de \(\hat{f}_{h,-i}\). \(\blacksquare\)
Exemplo 1 (Kernel gaussiano). Se \(K = \phi\) é a densidade da Normal padrão, então \(\bar{K}(v)\) é a densidade de \(Z_2 - Z_1\) em \(v\), com \(Z_1, Z_2\) i.i.d. Normal padrão. Assim, \(\bar{K}(v) = (4\pi)^{-1/2}e^{-v^2/4}\) é a densidade da \(N(0,2)\), e \(\text{CV}(h)\) tem forma fechada.
Observação (Custo computacional). O Lema 5 elimina as duas operações caras da definição de \(\text{CV}(h)\): a integração numérica de \(\hat{f}_h^2\) e a construção de \(n\) estimadores de exclusão. Tudo depende apenas das diferenças \(X_j - X_i\), que são calculadas uma única vez e reaproveitadas para cada \(h\) de uma grade. Alternativamente, os termos de exclusão podem ser obtidos a partir do KDE completo, pois \(\hat{f}_{h,-i}(X_i) = (n-1)^{-1}\left(n\hat{f}_h(X_i) - K(0)h^{-1}\right)\).
Observação (A variância de \(\text{CV}(h)\)). O Teorema 1 garante que \(\text{CV}(h)\) acerta \(J(h)\) em média, para cada \(h\) fixo. Isto não garante que \(\hat{h}_{\text{CV}}\) esteja perto da banda que minimiza \(J\), e há três razões para esperar que não esteja.
Primeiro, \(J\) é plana perto do seu mínimo. Como \(J'(h^*) = 0\), tem-se \(J(h) \approx J(h^*) + c(h - h^*)^2\), e uma flutuação de tamanho \(\delta\) em \(\text{CV}(h)\) desloca o minimizador por uma distância da ordem de \(\sqrt{\delta/c}\). Flutuações pequenas do critério tornam-se flutuações grandes da banda.
Segundo, as parcelas \(K((X_j - X_i)h^{-1})\) só são relevantes para pares com \(|X_j - X_i|\) da ordem de \(h\). Para \(h\) pequeno, \(\text{CV}(h)\) depende de poucos pares e tem variância grande justamente na região de bandas pequenas, onde podem surgir mínimos espúrios.
Terceiro, se os dados foram arredondados, há pares com \(X_i = X_j\) e \(i \neq j\). Cada um contribui com \(K(0)\) no termo de exclusão, o que reintroduz o problema do Lema 4 e pode levar a \(\text{CV}(h) \to -\infty\) quando \(h \to 0\) (Exercício 3).
Estes argumentos são confirmados pela teoria: Stone (1984) mostrou que \(\hat{h}_{\text{CV}}\) é assintoticamente ótima, mas Hall and Marron (1987) mostraram que o erro relativo \(\hat{h}_{\text{CV}}/h^* - 1\) converge a zero apenas à taxa \(n^{-1/10}\).
Exercícios
Exercício 1 (Cálculo do critério)
Verifique a identidade \(\hat{f}_{h,-i}(X_i) = (n-1)^{-1}\left(n\hat{f}_h(X_i) - K(0)h^{-1}\right)\).
Mostre que, para o kernel uniforme, \(\bar{K}(v) = 4^{-1}(2 - |v|)\,\mathbb{I}(|v| \leq 2)\).
Mostre que, se \(K\) é simétrico, então \(\bar{K}(0) = R(K)\) e \(\bar{K}\) é simétrico.
Exercício 2 (O critério ingênuo)
Suponha que \(X_1, \ldots, X_n\) são distintos e que \(K \geq 0\) tem suporte compacto e máximo em \(0\).
Mostre que, para \(h\) suficientemente pequeno, \(\int \hat{f}_h^2 = R(K)(nh)^{-1}\) e \(n^{-1}\sum_i \hat{f}_h(X_i) = K(0)(nh)^{-1}\).
Conclua que o critério ingênuo tende a \(-\infty\) quando \(h \to 0\).
Mostre que, sob as mesmas condições, \(\text{CV}(h)\) tende a \(+\infty\) quando \(h \to 0\).
Exercício 3 (Dados arredondados)
Suponha que \(n = rm\) e que os dados assumem \(r\) valores distintos, cada um repetido exatamente \(m\) vezes. Seja \(K = \phi\).
- Mostre que
\[\lim_{h \to 0} h\,\text{CV}(h) = \frac{mR(K)}{n} - \frac{2(m-1)K(0)}{n-1}.\]
Conclua que, se \(m \geq 2\), então \(\text{CV}(h) \to -\infty\) quando \(h \to 0\).
Proponha uma forma de contornar este problema na prática.
Exercício 4 (Simulação)
Implemente \(\text{CV}(h)\) usando o Lema 5 e o Exemplo 1.
Gere \(200\) amostras de tamanho \(n = 100\) de uma \(N(0,1)\) e obtenha \(\hat{h}_{\text{CV}}\) em cada uma. Faça um histograma das bandas obtidas e compare com a banda que minimiza o MISE, que para o kernel gaussiano e \(f = \phi\) é aproximadamente \(1{,}06\,n^{-1/5}\).
Repita (b) com \(n = 1000\). A dispersão das bandas diminui na proporção esperada pela Observação sobre a variância de \(\text{CV}(h)\)?
Exercício 5 (Validação cruzada e jackknife)
Explique a relação entre \(\hat{f}_{h,-i}\) e as estimativas de exclusão do jackknife da Aula 6.
O critério \(\text{CV}(h)\) poderia ser obtido aplicando a correção de viés do jackknife ao critério ingênuo? Discuta.